História

 

FREGUESIA DE MALTA
 
Área: 1 940 000 m2
 
População: 1252 habitantes (censos 2001-corrigido)
 
Orago: Santa Cristina
 
Esta Freguesia pertence ao Concelho de Vila do Conde, distrito do Porto, pelo Decreto de 24 de Outubro de 1855 e dista da Sede de Concelho cerca de 10 Kms;
Registava em 2005, por consolidação do STAPE, eleitores em número superior a 1020, sobre uma área hoje de apenas cerca de 02 quilómetros quadrados;
Deve obediência eclesiástica à diocese do Porto;
 
Dista 10 Km da sede do concelho.
O mais antigo documento que se refere a Santa Catarina de Malta data do ano de 1079. A freguesia nem sempre teve este nome, aparecendo também sob as designações de Cornias, Cornis, Cornas, Cornhas e Cornes, derivado do latim “Cornus”, árvore de fruto que antigamente abundava na região. Porque o nome não era simpático aos habitantes, Cornes desapareceu do registo paroquial em 1593, substituída por apenas Santa Cristina.
Esta freguesia em 1623 é referida como Santa Cristina de Cornes, e foi o abade frei Manuel da Costa, que paroquiou a freguesia entre 1683 e 1710, o primeiro a usar o actual nome de Santa Cristina de Malta, aproveitando o facto de ser abadia da Ordem de Malta.
Tópicos Históricos:
Desde os primórdios de Santa Cristina de Côrnes, por concessões em pagas à Ordem do Hospital, no século XII, através de terras limadas entre as nascentes do ribeiro de Côrnes, e o outro braço abonado a Sul, cujos confluíam no ribeiro “Labruge” (hoje pequeno “Rio Onda”), se constatou na primeira Inquirição, em 1258, do rei Afonso III, irmão do D. Sancho II destituído por Bula Papal, que a tal data já existiam doze casais da Ordem do Hospital, e mais a Igreja de sua pertença: sete em “Côrnes de Cima”, quatro em “Côrnes de Baixo” e mais um e 1/9 em “Borrossos”. E, só neste lugar, é que havia (de particulares) mais dois casais com 8/9 doutro.
 
Ordem do Hospital ou Ordem dos Cavaleiros do Hospital ou Ordem de S. João de Jerusalém; por qualquer destes nomes, assim esta era identificada. Só mais tarde, por razões que em outro sítio explicamos, passou a ser “Ordem de Malta”.
 
a) Comecemos então por lembrar, que foram cruzados afins de ordens diversas (Templários, S. Tiago, Calatrava, etc.) mas predominantemente os Hospitalários, “que em Junho de 1147 tendo entrado na barra do Porto com uma frota de cerca de 200 velas, trazendo a bordo uma multidão de 13 mil homens, cruzados de várias nacionalidades, D. Afonso Henriques, por intermédio do Bispo do Porto, negoceia o auxílio desta frota e poucas semanas depois ela entra na barra de Lisboa. A conquista de Lisboa em Outubro de 1147, torna-se assim possível, e houve mesmo muitos cruzados que por cá ficaram, não continuando a sua viagem rumo ao Oriente. A reconquista aos mouros, ela própria assumiu o título de cruzada. E também porque aí ajudaram, mais receberam do Rei avultadas concessões”. E logo por aqui se deduzem razões óbvias da sua fragmentação.
b)     Cerca de 1312, pela sua própria natureza e consequente declínio da força militar da Ordem, e após ter sido expulsa de Jerusalém esta dispersou-se; vindo a instalar seu corpo principal na Ilha de Rodes até 1522, data em que foi desalojada pelos Turcos Otomanos. Depois, em 1530 passou a denominar-se Ordem de Malta, por via do nome que tinha a Ilha onde, desde esse ano, se instalou e resistiu até aos nossos dias. É hoje Estado independente integrado na U.E..
c)     Pelo lado que interessa à nossa Freguesia, a Ordem do Hospital, ou dos Hospitalários ou de S. João de Jerusalém, regista existência em Portugal no início do século XII, por volta de 1122 e 1128. No entanto, só tem importância militar em Portugal (como também se pode concluir), no último quartel do século XII. Em 1194, D. Sancho I doou-lhes a terra de Guidintesta, onde se obrigaram a edificar o castelo de Belver (então terra situada na margem norte do Rio Tejo até ao Zêzere – pertence hoje a Portalegre). D. Sancho II em 1232, doou-lhes as terras do Crato. O seu Grão Mestre a partir de 1340 foi designado Prior do Crato, por aí se situar a sede da Ordem dos Hospitalários em Portugal. Vejamos exemplo da sua importância:...
d)     Com a morte inglória de D. Sebastião, veio a ser pretendente ao Trono de Portugal, D. António, o Prior do Crato (filho do infante D. Luis e neto de D. Manuel I), e que acabou por o perder para Filipe II de Espanha, que veio como se sabe a ser Filipe I de Portugal.
e)     E nós Maltenses, não devemos esquecer nem deixar de conjugar isto: - É que, em 1640, e após 60 anos de ocupação Espanhola:...até Filipe IV de Espanha (III de Portugal)..., este monarca “Católico Espanhol” foi de Portugal expulso com sua corte. E, agora?...Agora!?... até parece que nada!... Só que,...a nossa querida Igreja de Santa Cristina, exibe-se datada de 1637. Portanto, em plena era “Filipina” dos “Católicos”.
Esta data, presume-se ser, a dum importante restauro. Visto que, em 1258, pelas inquirições de D. Afonso III, irmão de D. Sancho II, foi testemunhado já existir a “Igreja, pertença da Ordem do Hospital” na paróquia de Santa Cristina de Cornes.
 
CURIOSIDADE HISTÓRICA: O papa Alexandre VI (de origem espanhola), pai dos Bórgia “malditos” César e Lucrécia, foi quem conferiu a titularidade de “reis católicos” aos reis de Espanha, e por consequência os “nossos” FILIPES o eram. E foi também aquele papa, quem primeiro arbitrou, inicial e tendencialmente mais favorável a Espanha, a divisão do Mundo em dois domínios, que D. João II, pela parte de Portugal, liderou. Cuja divisão, veio algum tempo depois, a ser consagrada no Tratado de Tordesilhas. E aquele seu filho César (que primeiro foi cardeal e depois príncipe militar), num dia conjunturalmente difícil para ele, acorreu a Milão, diante de Luís XII - Rei de França, que receava de si desagradado, e então, numa atitude inusitada e por prudência, vestiu-se de negro, capa orlada a oiro, onde sobre o lado esquerdo sobressaíam as distintas insígnias, da cruz branca de oito pontas, da Ordem de S. João de Jerusalém; é também este Príncipe, coevo de Rafael, Leonardo da Vinci e Maquiavel (que para ele trabalharam - aliás o “Principe” de Maquiavel, é deste que trata), e a quem estes foram muito úteis, na arte, na guerra e na política. Aliás todos coevos de Michelangelo, o “maior artista”. E se o ano de 1564 sofreu a perda deste “Miguel Angelo”, não deixa de ser feliz porque rejubilou com o nascimento de Galileu Galilei. E, por fim, e para a eternidade, eis que: Maquiavel, Michelangelo e Galileu, jazem os três, com distinção, na Catedral de Florença.
E, enquanto ao tempo, por lá e por todo o mundo ocidental o “Renascimento e os Descobrimentos” davam os últimos golpes de misericórdia na “Idade Média”, produzindo crescente convulsão, e especialmente na muito poderosa Igreja Católica que nela se debatia, acresce que esta, acaba de sofrer um renovado abalo “telúrico” contra seus princípios científicos consagrados na Bíblia, com a explosiva publicação, de GALILEU em 1632, da teoria “heliocêntrica” apoiado no telescópio que inventou, aliás no seguimento do polonês Copérnico, que negava ser a terra o centro do Universo. E, de mal a pior, para si Igreja, quando em 1633, aquele cientista foi condenado e teve de abjurar perante a Inquisição.
Só para concluir:... em síntese e mediante estes tópicos, e naquele tempo,  que vemos nós por cá e  por curiosidade?: A hoje pequena (mas notória ao tempo) Igreja da “Ordem do Hospital” em” Santa Cristina de Côrnes”, (Freguesia de Malta) com “obra datada de 1637”, e já quatro anos após o conhecimento por parte da Civilização Ocidental, da violência daquele abjuramento; e agora, pior ainda, sob beneplácito do católico Filipe III de Portugal (IV de Espanha), vencido três anos depois em 1640, com sua corte logo expulsa para o reino vizinho!... Pois então, como terá ficado a nossa Freguesia de Malta (que não poderia ser vista senão como vítima desta envolvência; e será que foi?...) face aos vizinhos?
 
Enquadrando a História da Freguesia de Malta:
 
f)      O documento mais antigo que se conhece data do ano de 1097, e é um título de bens imóveis sitos na Vila Cornias;
g)     Este nome de Santa Cristina de Cornes, “diz-se”, nunca terá agradado aos habitantes desta terra, ainda que se saiba derivar, por certo, do latim Cornus, que era uma pequena árvore frutífera de pequeno porte, que uns traduzem por corniso, outros por pilriteiro, outrora muito cultivado entre nós e hoje quase desaparecida.
h)     Das inquirições de D. Afonso III em 1258, “Fernando Suares” abade da Igreja deste lugar, que antes se chamava por Santa Cristina de “Cornes”, declarou em juramento e interrogação, pertencer tal igreja à Ordem do Hospital, e por apresentação da mesma, o Bispo do Porto o colocara na referida Igreja, não sabendo donde a Ordem houve este direito. Mais disse interrogado que havia quatro casais em Cornes de Baixo e outros sete em Cornes de Cima, todos pertença da Ordem do Hospital. Confirmaram este depoimento Domingos Pais e João Gonçalves. Pelo depoimento se conclui que além da Igreja, a esse tempo já havia mais três aldeias (vilas): “Cornes de Cima”, “Cornes de Baixo” e “Borrossos”. E que quase todos os “casais” pertenciam à Ordem do Hospital. Só em “Borrossos” é que havia casais de particulares.
i)       Esta Freguesia, no catálogo dos Bispos do Porto de 1623, ainda se lê o seu antiquíssimo topónimo – Santa Cristina de Cornes; e só a partir de 1683 é que se consumou a designação de Santa Cristina de Malta. Tendo hoje apenas o nome de Freguesia de Malta.
j)       Por a palavra se prestar a equívocos, o abade frei Manuel da Costa, que paroquiou a freguesia entre 1683 e 1710, foi o primeiro a usar o seu actual nome precedido do Orago da Freguesia – Santa Cristina de Malta –, aproveitando o facto de ser da abadia da Ordem de Malta;
k)     Daqueles antigos “casais” da Ordem do Hospital, parece nada ter sobrado identificável, nem das “vilas”, senão em “ Cornes de Cima” a Poça de Côrnes, única entidade, que ainda hoje tem seu nome. Nada, que a erosão das vicissitudes do tempo não engolisse, tendo ficado pouco mais que resquícios:
l)       A casa em ruínas, do lado direito de quem sobe, na hoje chamada Rua de Cima, com vestígios de construção de diferentes estilos, e diferentes épocas; depois...
m)   A casa que terá sido pertença da abadia da Ordem de Malta, quiçá resíduo dos antigos casais da Ordem do Hospital, é situada na actualmente denominada “ Rua dos Cavaleiros da Ordem de Malta”. E poderá ser, com alguns pedestais e seu torreão muito degradado (que não outras partes da casa que indiciam construção do Sec. XVIII), o mais antigo testemunho urbano ainda de pé, desta freguesia que se chamou Santa Cristina de Cornes. Desconhece-se obviamente a data de edificação;
n)      Por fim, a Igreja! que com sua marcante reedificação de 1637, perfaz o trio dos testemunhos da presença proprietária dominante da Ordem do Hospital  desde os séculos XII e XIII em Terras de Santa Cristina de Cornes, que o frade Manuel Costa, mais tarde instigou a denominar-se Santa Cristina de Malta.
o)     Já edificações, testemunhos doutras épocas, temos a CAPELA DE SANTA APOLÓNIA, concluída em 1699; e o SENHOR DAS CRUZES, cuja data de edificação por razões que adiante se explicam é de 1714;
p)     Algo da História mais recente desta freguesia também se lê no cemitério: - Aí temos doze ricos mausoléus de granito (11), de mármore (1), trabalhados em vários estilos do século XIX, ali mandados edificar maioritariamente por famílias de emigrados no Brasil. Traduzem o apogeu duma época em que fluentemente se transferiram fortunas ganhas em Terras de Vera Cruz. Em dois dos citados mausoléus há três bustos de seus edificadores. E, foi assim, que na mesma época se edificaram algumas das grandes casas senhoriais que hoje também contribuem para caracterizar esta freguesia;
 
EXPLICANDO:
A Via Sacra do Senhor das Cruzes: - Por investigações inéditas, conhece-se que originariamente este lugar do Senhor das Cruzes se chamava Outeiro. E como este topónimo, segundo investigadores que invocam a profunda etimologia, designava cemitério ou necrópole, assim, a via sacra de hoje, não é uma casualidade histórica; ratificada pela data inscrita na cruz principal em consequência  da sua “fundação” urbanística de 1714, e que beneficiou dum restauro em 1879; mas é sim, uma consolidação da continuidade cristã, originária dum anterior culto aos mortos, prestado pelos antigos cristãos aos seus antepassados pagãos. Nestes Outeiros, os nossos antepassados depositavam, em vasos de barro acompanhados de várias ofertas, as cinzas dos seus mortos depois da cremação e mantinham naturalmente o costume de continuarem a venerar seus antepassados; e faziam-no através de procissões; Esta prática veio a ser proibida pelo Concílio Provincial Bracarense; e essa proibição foi recolhida nas Constituições da diocese do Porto no seguinte preceito: “Conformando-nos com a disposição do Concílio Provincial Bracarense, estreitamente prohibimos que, com as procissões vão a outeiros ou penedos, mas de hua Igreja ou Ermida onde se selebrão os offícios Divinos a outra” (Constituições Synodaes do Bispado do Porto, Coimbra, 1735, pg 249-250). Aliás, disposição semelhante, embora mais contemporizadora, encontra-se nas Constituições da diocese de Viseu: “Por ser abuso grande irem as procissões a outeiros ou penedos, como em alguas partes se faz, defendemos que daqui em diante, nenhuma procissão va senão a Igreja ou Ermida & nam a outro lugar, como sam outeiros ou penedos, por nelles estar algua Cruz somente, salvo se a dita procissam ouver de tornar em ordem pera a Igreja, dode saio” (Constituições Sinodaes do Bispado de Viseu, Coimbra, 1617, pg. 238); Casos houve, como em Monriz-Paredes, em que o topónimo “Outeiro” acabou por ser substituído pelo da “CRUZ” – a Cruz do Outeiro; Em vários locais, que conservaram o nome de “Outeiro”, como em Real – Amarante ou Novelas – Penafiel, já se recolheram, em escavações ocasionais, muitas peças de olaria; A existência da aludida proibição não implicava necessariamente o fim das procissões em relação aos outeiros, como o não implicou também em relação aos penedos, uma vez que, em meados do século XX, ainda se faziam procissões ao penedo conhecido por “PIA” (que deu o nome à serra onde está, nos limites da freguesia de Campo – Valongo), para conseguirem obter a graça da chuva que teimava em não cair do céu sobre as terras;
COMENTÁRIO: Se perspectivarmos aquela “fundação” coactada ou constrangida entre os sínodos bispais de Viseu e Coimbra em 1617 (algo contemporizadores), e os mais severos do Bispado de Braga a que anuiu o do Porto em 1735, já a essa luz se percebe aquela como refundação e com que data, para a continuidade do sacro/antigo culto em causa;
 
A Freguesia de Malta, para além  dos monumentos já citados, tem ainda dois legados históricos da maior importância que a caracterizam! e que traduzem a ampla visão dos seus autores, nossos antepassados:
 
Em 19 de Agosto de 1895, António Pereira Ramos de Almeida, nascido nesta Freguesia em 29 de Maio de 1828 e falecido em 18 de Fevereiro de 1900, emigrante editor livreiro em Recife-Brasil, fez testamento a favor da “Junta da Paróquia de Malta” (#) (hoje Freguesia de Malta), tendo-lhe doado bens importantes tais como: a casa senhorial que desempenha hoje a Sede da Junta de Freguesia; leiras no Largo de Santa Apolónia onde se insere a Avenida de seu nome e o parque infantil; mais um conjunto de casas de renda, cujos rendimentos pretensamente destinados a conservar os bens urbanos onde se inclui a escola primária (em Berrossos que é hoje Jardim de Infância) que também doou; e mais um conjunto de bens rústicos, sobre um dos quais se edificou a casa do pároco da Freguesia; sobre outro, a actual Escola EB1, bem como o actual Salão Multiusos (derivado do aproveitamento das duas salas da extinta telescola); e, por fim, sobre outro, fez-se uma divisão de três lotes, em cada um dos quais se edificou o seguinte: no primeiro lote a Norte, duas pequenas casas de renda; no do lado Sul, fez-se o ringue polivalente hoje sede do Centro de Juventude de Malta; e no do centro, edificou-se a Extensão de Saúde de Malta, pertença do Ministério da Saúde – A R S N (inicialmente destinada a servir cinco freguesias em redor).
 
Foi a partir do Setembrismo, cujo legou um impar lugar na História a Manuel da Silva Passos (conhecido por Passos Manuel), que através da importantíssima Lei de 25 de Abril de 1835, nasceram em simultâneo para a Administração Pública tanto os DISTRITOS como as FREGUESIAS.
A confusão, essa! ainda por largo tempo  interferiu,  provocada pela  legitimidade moral do enraizamento da Igreja Católica, de que desde os primórdios como agente activo e preponderante, foi inegavelmente autor emérito. Porque nessa peculiar função, foi ela óbvia e insubstituível, do desempenho de agregação e zelo dos núcleos paroquiais; de que senão fautores, quase sempre defensões da História da maior parte das Freguesias Portuguesas. Em suma, foi graças a esse desempenho, que se acabou por confluir ao actual estado destas.
E, de tal sorte, é este núcleo de Santa Cristina de Cornes, o protótipo desse desempenho gratificante, para a actual existência da FREGUESIA DE MALTA.